22 NOV 2017

Ano Nacional do Laicato

Queridos irmãos e irmãs.

No próximo dia 26 de novembro, Solenidade de Nosso Senhor Jesus Cristo Rei do universo, será oficialmente aberto o Ano Nacional do Laicato, com o tema “Cristãos leigos e leigas, sujeitos na “Igreja em saída”, a serviço do Reino” e o lema “Sal da Terra e Luz do Mundo (Mt 5,13-14)”. O encerramento desse ano dedicado ao Laicato ocorrerá em 25 de novembro de 2018, também na Solenidade de Cristo Rei.

A proposta da Igreja no Brasil é que esse seja um tempo oportuno para celebrar a presença e a organização dos cristãos leigos e leigas em nosso país, bem como para aprofundar a reflexão sobre sua identidade, vocação, espiritualidade e missão, conclamando todos a testemunharem Jesus Cristo e seu Reino na sociedade.

Muitos, nos dias de hoje, utilizam o termo “leigo” para expressar seu desconhecimento acerca de alguma situação ou de alguma coisa que existe, ou seja: “eu sou leigo nesse assunto”. Mas, o que de fato, significa ser leigo, segundo os ensinamentos da Igreja?

O leigo: quem é ele na Igreja? Qual a sua missão?

Durante o Concílio Vaticano II (1962-1965), que “consiste numa reunião formal de representantes da Igreja, junto com o Papa, para tomar decisões dogmáticas e pastorais, que possam ajudar no crescimento da Igreja, na eliminação dos erros e na difusão das verdades da fé” (BELLITO, Christopher M.; História dos 21 Concílios da Igreja – de Niceia ao Vaticano II, Edições Loyola, 2010), foi promulgada, pelo Papa Paulo VI, a Constituição Dogmática Lumen Gentium sobre a Igreja. Nela, afirma-se que: “pelo nome leigos aqui são compreendidos todos os cristãos, exceto os membros de ordem sacra e do estado religioso aprovado na Igreja. Esses fiéis, pelo batismo, foram incorporados a Cristo, constituídos no povo de Deus e, a seu modo, feitos partícipes do múnus sacerdotal, profético e régio de Cristo, pelo que exercem sua parte na missão de todo o povo cristão na Igreja e no mundo” (Lumen Gentium, n. 31).

Unidos aos bispos, presbíteros, diáconos, religiosos e religiosas, os leigos fazem parte fundamental do Povo de Deus, constituído em um só Corpo de Cristo, participando, a seu modo, na própria missão salvífica da Igreja. Porém, os leigos, são especialmente chamados para tornarem a Igreja presente e operosa naqueles lugares e circunstâncias nos quais apenas através deles a Igreja pode chegar como sal da terra. Assim, todo leigo, em virtude dos próprios dons que lhe foram conferidos, é, ao mesmo tempo, testemunha e instrumento vivo da própria missão da Igreja ‘na medida do dom de Cristo’ (Ef 4,7)” (Lumen Gentium, n. 33).

A Igreja de hoje continua abrindo espaço, acolhendo, promovendo e incentivando a participação dos leigos na missão da Igreja, levando-os a crer que “devem sentir-se corresponsáveis na construção da sociedade, segundo os critérios do Evangelho, com entusiasmo e audácia, em comunhão com os seus Pastores (...) [e que] são chamados para levar ao mundo o testemunho de Jesus Cristo e ser fermento do amor de Deus na sociedade” (Documento de Aparecida, 2007, p. 282).

Desse modo, compreende-se que os leigos têm um papel próprio e fundamental no processo de evangelização da Igreja e na implantação do Reino de Deus no mundo, de modo que nem os ministros ordenados e religiosos podem fazer o seu papel, nem os leigos podem fazer aquilo que é próprio dos ministros ordenados e dos religiosos. Cada um, com suas particularidades, com sua vocação, unidos, são capazes de tornar a mensagem do Evangelho cada vez mais forte nesse mundo.

O Papa Pio XII, em um de seus discursos a um grupo de cardeais (20 de fevereiro de 1946), afirmou claramente: “eles [os leigos], e sobretudo eles, devem ter uma consciência, cada vez mais clara, não só de pertencerem à Igreja, mas de serem a Igreja, isto é, a comunidade dos fiéis sobre a terra sob a guia do Chefe comum, o Papa, e dos Bispos em comunhão com ele. Eles são a Igreja”.

Além disso, “os fiéis leigos são pessoas que vivem a vida normal no mundo, estudam, trabalham, estabelecem relações amigáveis, sociais, profissionais, culturais etc. O Concílio considera essa sua condição não simplesmente como um dado exterior e ambiental, mas como uma realidade destinada a encontrar em Jesus Cristo a plenitude do seu significado” (Exortação Apostólica Pós-Sinodal Christifideles Laici sobre Vocação e Missão dos Leigos na Igreja e no Mundo, n. 15).

Qual é o lugar em que o leigo exerce sua missão?

O mundo é o ambiente e o meio da vocação cristã dos fiéis leigos. “Estar e agir no mundo são, para os fiéis leigos, uma realidade, não só antropológica e sociológica, mas também e especificamente teológica e eclesial, pois é na sua situação intramundana que Deus manifesta o Seu plano e comunica a especial vocação de ‘procurar o Reino de Deus, tratando das realidades temporais e ordenando-as segundo Deus” (Exortação Apostólica Pós-Sinodal Christifideles Laici sobre Vocação e Missão dos Leigos na Igreja e no Mundo, n. 15).

Mais recentemente, em 2016, a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) publicou o documento 105, cujo tema é “Cristãos leigos e leigas na Igreja e na sociedade”, evidenciando os lugares – os chamados areópagos modernos – nos quais os leigos são chamados a exercerem sua vocação batismal e seu compromisso com o Evangelho. Vejamos quais são esses lugares e quais são os deveres dos leigos:

  • A Família: areópago primordial – “Recomendamos aos leigos e leigas que assumam, com alegria e dedicação, o cuidado da família e a transmissão da fé aos filhos, em sintonia com o plano de Deus e os ensinamentos do Magistério da Igreja” (n. 257).
  • O mundo da política – “É missão da Igreja oferecer critérios éticos, educação política, conscientização e formação de leigos para o exercício da política. Entretanto, a militância política é missão específica dos fiéis leigos, que não se devem furtar às suas obrigações nesse campo” (n. 261).
  • O mundo das políticas públicas – “Nos Conselhos de Direitos há um grande espaço para os cristãos leigos e leigas se empenharem por políticas públicas em favor da saúde e da educação, do emprego e da segurança, da mobilidade urbana e do lazer, entre outras urgências. São espaços para defender políticas públicas em favor das famílias, das crianças, dos jovens, das mulheres e dos idosos. São também o lugar para lutar corajosamente conta a corrupção e o narcotráfico, dois grandes males que afetam a vida de nosso povo” (n. 265).
  • O mundo do trabalho – “Criar e motivar grupos de partilha e de reflexão para os diferentes profissionais e empresários, estimulando-os a serem discípulos missionários em sua atuação profissional e, ao mesmo tempo, promovendo a formação para uma autêntica espiritualidade do mundo do trabalho, como participação na obra do Criador, na efetivação do progresso terreno e no desenvolvimento do Reino de Deus” (n. 267).
  • O mundo da cultura e da educação – “Incentivar e apoiar os cristãos leigos e leigas para que, nos diferentes campos das artes e da cultura popular, apontem para o sentido da vida e da sua transcendência, contribuindo para a obra evangelizadora. De igual modo, no mundo da educação, contribuir para a promoção do desenvolvimento integral da pessoa, combatendo também a pobreza e a escravidão, oferecendo às pessoas a possibilidade da formação da consciência e a para a liberdade” (n. 268).

Muitos são, pois, os lugares ou areópagos do mundo moderno em que os cristãos leigos e leigas podem exercer seu batismo, ajudando a transformar a realidade do mundo, tornando-o mais humano, respeitável e digno para todos. Porém, cabe a cada cristão leigo e leiga assumir esse compromisso, criando consciência de sua missão e vocação como sujeito eclesial, sentindo-se Igreja e levando a presença da Igreja e de Cristo onde quer que vá.

Queridos irmãos e irmãs, celebremos, com alegria, a vocação e a missão de cada leigo e leiga, tão importante e fundamental para a vida e a missão da Igreja. Que, em comunhão com todos os Pastores, nossos leigos e leigas colaborem na missão de anunciar e implantar o Reino de Deus.

Rezemos a oração para o Ano Nacional do Laicato:

Ó Trindade Santa, Amor pleno e eterno, que estabelecestes a Igreja como vossa “imagem terrena”, nós vos agradecemos pelos dons, carismas, vocações, ministérios e serviços que todos os membros de vosso povo realizam como “Igreja em saída”, para o bem comum, a missão evangelizadora e a transformação social, no caminho de vosso Reino. Nós vos louvamos pela presença e organização dos cristãos leigos e leigas no Brasil, sujeitos eclesiais, testemunhas de fé, santidade e ação transformadora. Nós vos pedimos que todos os batizados atuem como sal da terra e luz do mundo: na família, no trabalho, na política e na economia, nas ciências e nas artes, na educação, na cultura e nos meios de comunicação; na cidade, no campo e em todo o planeta, nossa “casa comum”. Nós vos rogamos que todos contribuam para que os cristãos leigos e leigas compreendam sua vocação e identidade, espiritualidade e missão, e atuem de forma organizada na Igreja e na sociedade à luz da evangélica opção preferencial pelos pobres. Isto vos suplicamos pela intercessão da Sagrada Família, Jesus, Maria e José, modelos para todos os cristãos. Amém!


Pe. Neri Dione Squisati

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